Região e Regionalização: A
Trajetória de um Debate – REGIONAL GLOBAL –
(Rogério Haesbaert)
Por: Marcos Barros
“Não pensamos que a região haja
desaparecido. O que esmaeceu foi a nossa capacidade de reinterpretar e de
reconhecer o espaço em suas divisões e recortes atuais, desafiando-nos a
exercer plenamente aquela tarefa permanentemente dos intelectuais, isto é, a
atualização dos conceitos”. (Santos,
1994:102)
O
autor procura problematizar o tema Região e Regionalização sem se preocupar com
as diversas conceituações dadas pelas correntes geográficas, procurando dar
ênfase à produção do conhecimento e a necessidade de se fazer recortes do
espaço para efeitos de estudos. Para tal
ele busca o pensamento de diversos geógrafos e pensadores da geografia, tais
como La Blache, Sauer, Hartshorne procurando através da evolução do conceito de
região respostas para a problemática disposta e formas de se entender e utilizar
esses conceitos no paradigma atual que vivenciamos. Ver a região não apenas como um recorte
espacial, mas como algo dinâmico e de múltiplas escalas.
Para
ele mesmo com a globalização e sua homogeneização existe uma reconstrução da
heterogeneidade e da fragmentação, dada ás novas desigualdades e diferenças que
surgem em todos os cantos do planeta, o que proporciona um retorno ás
singularidades e ao especifico. Isso também pode ser evidenciado na
proliferação das geografias regionais populares, bem como no discurso da mídia
e na formação do senso comum.
Suas
reflexões também nos traz a discussão da questão regional fora do âmbito da
geografia, discussão esta feita pelas diversas ciências sociais tais como a
Antropologia, História, Sociologia, passando também pelas ciências naturais
onde conceitos como de Biorregião tem sido amplamente discutidos.
Num
panorama em que muitos preconizam o fim da região, do território, ou mesmo da Geografia,
por conta de um processo global de expansão dos mercados, mas que gera pobreza
e exclusão social, criando e recriando fatos políticos, o conceito de região
torna-se fundamental na análise das questões sociais e no pensar da Geografia
como ciência humana. E é nesse contexto que ele reproduz Gilbert (1988) “(...)
os geógrafos estão redescobrindo o estudo do especifico”.
Haesbaert,
traça um longo caminho antes de chegar a novas concepções da Geografia Regional
contemporânea, fazendo um estudo sobre a origem etimológica do termo região e
os primórdios de formação da Geografia Regional. É na origem do termo região que observa uma
grande polissemia de entendimentos, que perpassa desde a ideia de recorte ou
parte do todo que são sugeridas nas definições “esfera de domínio de algo” ou
“espaço ocupado por alguma coisa”, até a relação de poder vinculada a raiz do
termo “regere” comandar. É fazendo uma reflexão sobre os diferentes recortes do
tempo e espaço que ele (o autor) nos diz que pensar em região, antes de tudo é
pensar nos processos de regionalização seja como simples procedimento
metodológico ou dinâmica vivida e produzida pelos grupos sociais.
“Região:
dos primórdios ao período hegemônico”, é nessa viagem pelo tempo que Haesbaert
busca o pensamento de diversos geógrafos e suas concepções de regionalização e
região, citando Hartshorne e sua clássica obra “A Natureza da Geografia” como
sendo pioneira nas reflexões teóricas sobre a transformação do pensamento
regional, ou na própria construção da geografia moderna. Referencias também são
feitas aos modelos geográficos de Estrabão e Ptolomeu que embora considerados
opostos já apresentava claramente diferenciações entre a Geografia geral e
regional.
Por
fim ele nos coloca que considerando a trajetória ao longo da historia do
pensamento geográfico, facilmente identifica-se fases de um rico processo de
construção, destruição e reconstrução do conceito de região. E é nesse percurso
conceitual que ele coloca a intencionalidade de seu trabalho de retomar de
maneira sucinta este debate, priorizando os momentos de ruptura ou os momentos
em que de alguma forma foi decretada a morte da região. Expressando então que o
conceito de região e, por extensão, os processos de regionalização que o
acompanham, epistemologicamente falando, são moldados dentro de um amplo
continuum, desde a visão mais racionalista que percebe a região como mero
constructo do nosso intelecto, instrumento que permite entender a dinâmica das
partes do espaço geográfico, até abordagens mais realistas, em torno de
fenômenos ocorridos provenientes das relações ali vivenciadas.