A geografia da acumulação por despossessão
http://www.teoriaedebate.org.br/materias/internacional/geografia-da-acumulacao-por-despossessao
Edição 116
27 setembro 2013
Profº José Antonio Lobo dos Santos
A reestruturação do capitalismo fragiliza o Estado na capacidade de promover reformas que garantam direitos sociais e desmantela o poder de compra dos trabalhadores. A lógica é manter um padrão de acumulação de capital adaptado ao contexto socioespacial de cada parte do globo terrestre.
A reestruturação do capitalismo fragiliza o Estado na capacidade de promover reformas que garantam direitos sociais e desmantela o poder de compra dos trabalhadores. A lógica é manter um padrão de acumulação de capital adaptado ao contexto socioespacial de cada parte do globo terrestre.

Movimento do grande capital provoca onda de desemprego em países europeus como na Espanha
Foto: Susana Vera/Reuters
A crise econômica de 2008, que continua se expandindo pelo globo, se manifesta de forma perversa dentro de uma lógica fundamentada na ampliação da política neoliberal e na concentração de capitais mediante despossessões, fusões e incorporações. Essa crise, como processo de reestruturação do sistema capitalista, contribui para o aprofundamento mundial do neoliberalismo como doutrina sociopolítica, destrói empregos, concentra capital, aumenta significativamente a inflação e busca reduzir o poder de mobilização da classe trabalhadora.
Os efeitos de uma reestruturação capitalista por desregulamentação e livre atuação de agentes hegemônicos do capital provocam o que o renomado geógrafo britânico David Harvey chama de acumulação por despossessão. Perdas de ativos que vão parar nas mãos de especuladores, perda da capacidade de consumo, perda da capacidade do Estado de construir infraestrutura social e perda do poder de compra dos trabalhadores mediante aumento da inflação e congelamento de salários são sintomas visíveis desse processo.
A despossessão fragiliza o Estado, pois restringe sua atuação como provedor de reformas voltadas à construção de infraestruturas sociais e redistribuição de renda. Fragiliza os trabalhadores, corroendo salários, aumentando o desemprego e reduzindo a capacidade de articulação dos sindicatos. Por outro lado, fortalece a acumulação de capitais por meio da concentração de renda em mãos de grandes capitalistas e exacerba o poder social do dinheiro como instrumento de controle dos Estados e dos trabalhadores em uma escala global.
Em sintonia com David Harvey, o professor Milton Santos também põe o dinheiro na centralidade do processo de globalização do capital. Para ele, o dinheiro em estado puro e os grandes conglomerados da mídia têm papel essencial no processo de reestruturação do modo capitalista de produção. Essa reestruturação vem pautada por uma agenda globalitária impositiva, na qual os países pobres são forçados a mergulhar numa lógica de perversidade fundamentada na ampliação do poder de decisão dos conglomerados internacionais sediados nos países ricos e na limitação do poder de ação dos Estados e de parte das organizações populares.