terça-feira, 27 de setembro de 2011

EDUCAÇÃO, CIÊNCIA E TECNOLOGIA: RECEITA PARA DESENVOLVIMENTO

O PAPEL DA CIÊNCIA E DA TECNOLOGIA NO DESENVOLVIMENTO NACIONAL

 

Salete Linhares Queiroz, IQCS - USP
 
 
Uma ligeira olhada pelo mundo nos leva a concluir que a linha divisória básica entre um país desenvolvido e um não desenvolvido pode ser determinada pelo estágio da ciência e da tecnologia deste ou daquele. Apenas um país com um parque tecnológico “azeitado” pode gerar recursos financeiros e garantir emprego, saúde e educação para seus cidadãos, quesitos estes pilares da aspiração humana em termos de sociedade sustentável. Pode-se dizer, inclusive, que se não impossível, é muito difícil manter um sistema econômico ou político se este não for sustentado por um desenvolvimento científico e tecnológico aceitável. Exemplo disto é a ex-União Soviética, onde a falta de um desenvolvimento tecnológico industrial, em termos de bens de consumo acabou por ruir o estado socialista, certamente por não satisfazer as aspirações básicas do povo soviético. Deve-se ressaltar que pode haver um abismo entre ciência e tecnologia, pois em termos de ciência a ex-União Soviética era, e ainda é (no caso da Rússia) um país de bom desenvolvimento científico, mas pobre em tecnologia, e em conseqüência, pouco desenvolvido.
É interessante observar que países, até mesmo ricos, mas sem tecnologia nacional encontram-se constantemente à mercê de incontroláveis distúrbios sociais. Exemplos disto são o Iraque, a Venezuela e os países árabes, que são grandes exportadores de petróleo, e entretanto, não conseguem, democraticamente, uma estabilidade social nacional, e não se pode dizer que sejam países desenvolvidos.
Aqui deve-se fazer a observação de que riqueza natural não é, obrigatoriamente, sinônimo de desenvolvimento! Que o diga o Japão, que é um país pobre de riquezas naturais, mas graças à sua alta tecnologia, é atualmente um dos mais poderosos economicamente e dos mais desenvolvidos.
Mantendo o foco da discussão acima, e dando uma olhada cuidadosa, agora não mais pelo mundo, mas sim pelos estados que formam o nosso país, observa-se que também aqui, parte considerável da comunidade científica debruça-se sobre inúmeros projetos na tentativa de, via pesquisa científica e/ou tecnológica, buscar saídas para problemas que afligem a sociedade e de conceber e desenvolver tecnologias que fortaleçam o nosso parque industrial Assim, praticamente impossível seria, dentre outros fatores, devido ao amplo leque de pesquisas atualmente em andamento, selecionar algumas e afirmar serem as mais promissoras para o desenvolvimento brasileiro. No entanto, viável é a tarefa de apresentar ao leitor recortes destes trabalhos que sejam capazes de deixá-lo a par da importância, abrangência e influência dos mesmos no seu dia-a-dia.
Para o cumprimento da tarefa acima explicitada escolheu-se um caminho que implica em construção de pontes entre problemas que urgem por uma solução no Brasil e o árduo trabalho de um batalhão de cientistas a serviço dos anseios da população. As pontes a serem construídas unem alguns dos grandes “nós” nacionais (como fome, saúde e preservação do meio-ambiente) a pesquisas comandadas por cientistas brasileiros, empenhados na solução de tais problemas. O intuito é que, ao atravessar cada uma destas pontes, o leitor parta para a próxima caminhada com ânimo revigorado e que, ao final de todas as travessias, não duvide da grande importância da ciência e da tecnologia para o desenvolvimento nacional.
Para a construção da Ponte da Saúde, fartas e diversificadas foram as pesquisas encontradas. Seguramente, os nossos investigadores não descuidam do estudo de várias doenças, desde as mais corriqueiras, como a diarréia infantil, o medo e a ansiedade, às mais devastadoras, como o câncer, nas suas diversas modalidades. No combate a esta última, armas como terapia fotodinâmica, fármacos magnéticos e sementes radioativas são aperfeiçoadas, investigadas e testadas. Ainda dentro dos estudos que se relacionam com a cura do câncer pode-se destacar o domínio, por um grupo de pesquisadores do Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares, da tecnologia de fabricação de cápsulas contendo iodo-125, utilizadas no tratamento de tumores da próstata. Pode-se ainda enumerar outras doenças, menos populares do que o câncer, e que são incansavelmente investigadas pelos nossos pesquisadores. A busca por uma vacina que protege o coração da febre reumática, a tentativa de descoberta de meios capazes de diagnosticar o mal de Alzheimer anos antes de sua manifestação e a formação de uma frente de combate à tuberculose, denominada Rede-TB (Rede Brasileira de Pesquisa em Tuberculose) ilustram esta facilidade.
A construção da Ponte da Fome implicou no resgate de trabalhos voltados para o estudo e introdução de novas tecnologias capazes de aumentar a produtividade e reduzir o custo dos alimentos. Um número substancial de investigações tem como foco a busca de informações capazes de auxiliar os agricultores na devastação de pragas como o cancro cítrico nas lavouras de laranjas, limões e tangerina. A produção de defensivos naturais também é buscada, destacando-se o trabalho de pesquisadores da Universidade Federal de São Carlos que há dez anos se dedicam a criar um inseticida natural contra a saúva, que é um inseto capaz de danificar pastagens, culturas e áreas de reflorestamento. Alvo de ataque de cientistas, tanto da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul como da Universidade de Campinas são também os besouros conhecidos como carunchos, que atacam as variedades de feijão mais consumidas no Brasil. Proteínas extraídas da semente da pitomba (fruto da pitombeira, encontrada nas regiões norte e nordeste) e da semente da copaíba (árvore que margeia o rio Paraná no Centro-Oeste paulista), estão sendo investigadas na tentativa de deter este inseto de ação devastadora sobre a agricultura.
A Ponte da Preservação do Meio-Ambiente é construída pelas mãos de pesquisadores que lidam com problemas sempre em pauta no cenário mundial, como a busca pelo desenvolvimento de processos capazes de viabilizar a produção de plásticos mais fáceis de reciclar. Parece mágico um outro processo investigado no Centro de Tecnologia da Cooperativa de Produtores de Cana, Açúcar e Álcool de São Paulo, que almeja aumentar a produção de álcool em 30% sem a necessidade de plantar um único pé de cana a mais.
Muitas outras pontes poderiam ser construídas entre problemas nacionais e soluções envolvendo desenvolvimento científico e tecnológico.
A importância do papel da ciência e da tecnologia para o desenvolvimento nacional é inconteste e se concretiza através do trabalho de muitos pesquisadores, das mais diversas regiões do país, que se dedicam, algumas vezes por décadas, à busca de uma resposta para uma questão intrigante, cuja solução pode trazer conseqüências definitivas para a vida de todos nós.
Por fim, vale lembrar que existe no Brasil um contingente de indivíduos que vivem à margem de praticamente qualquer tecnologia. Uma ponte importante, que necessita ser construída com os mais fortes e seguros alicerces, e que antecede às que se alimentam da ciência e da tecnologia, é a Ponte da Educação. Dar educação a esta multidão e permitir que chegue a desfrutar plenamente dos benefícios proporcionados pela ciência e tecnologia é primordial. Somente desta forma a nação transporá o abismo do subdesenvolvimento e estará a caminho da criação de um país sustentável, econômica e socialmente, via ciência e tecnologia, que tenha PIB e economia de acordo com as necessidades do seu povo.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

PROJETO MARSOL / ACC MAPEAMENTO BIORREGIONAL




PROJETO Semeie Ostras

Mãos aliadas para fortalecer os ostreicultores familiares


 


Financiado pelo Ministério da Pesca e Aquicultura (MPA), de 2010 a 2012. 





Tem por princípio a gestão coletiva, de seus recursos e suas atividades, para que com isso ele possa alcançar o grande objetivo que é contribuir para a geração de trabalho e renda, melhorando a qualidade de vida de comunidades tradicionais de pesca e mariscagem situadas nas regiões do Baixo Sul Baiano e Baía de Todos os Santos. Para tanto é também necessário consolidar e ampliar a dinâmica produtiva solidária e tecnologia ambiental empregadas em unidades produtivas de ostreicultura. Assim, como objetivos específicos, temos:
  1. Desenvolver e aplicar estratégias de associação e cooperação entre os agentes da cadeia produtiva de ostreicultura solidária, oportunizando a diversificação desta atividade de maricultura e o aumento do consumo de seu produto nos mercados local e regional;
2.       Promover espaços de intercâmbio e capacitação em técnicas de maricultura artesanal solidária, co-manejo de recursos naturais, gestão participativa, gênero, comercialização em rede e conservação ambiental para moradores de comunidades diretamente envolvidas e de outras do entorno, estudantes universitários, produtores e técnicos das instituições envolvidas;
3.       Realizar diagnóstico participativo sobre a capacidade de recarga de estoques naturais de lambreta (Lucina pectinata) existentes no município de Taperoá para sensibilização dos extrativistas em relação ao co-manejo dos recursos naturais;
4.       Promover a sustentabilidade ambiental dos empreendimentos, incentivando a conservação ambiental, a redução dos conflitos de uso com outras atividades produtivas existentes, o aumento da participação social em espaços de regulação e fiscalização institucionais, assim como facilitar o acesso a equipamentos públicos e coletivos de depuração e sanidade de moluscos.
Lembramos também que o projeto prevê o envolvimento das pessoas envolvidas nas diversas etapas da cadeia produtiva, promovendo o fortalecimento do trabalho cooperativo, articulando ações de promoção de controle sanitário, produção e consumo sustentável de ostras e, também, de co-manejo de atividade extrativista em bancos de moluscos. E o envolvimento consiste também em acompanhar as atividades, fazer propostas, buscando integração para alcançarmos estes desejados objetivos.



ACC Mapeamento Biorregional, novo desafio em 2011-2


Mais um semestre começa na Universidade Federal da Bahia e se iniciam também as atividades da ACC: "Mapeamento Biorregional Participativo em Comunidades Costeiras Tradicionais como Ferramenta para Educação Ambiental". Esta disciplina, ministrada pelo Professor Miguel Accioly do Instituto de Biologia, tem como objetivo construir junto às comunidades de pesca uma ferramenta que possibilite a valorização do conhecimento tradicional dessas populações sobre seus territórios através da interlocução entre o saber acadêmico e tradicional e a partir daí, pensar e discutir as estratégias para gestão sócio- ambiental dessas realidades.

A proposta da atividade é construir uma ação interdisciplinar que contemple 10 estudantes de diversas áreas: Biologia, Oceanografia, Medicina Veterinária, Zootecnia, Engenharias, Ciências Sociais, Geografia, Serviço Social, Gênero e Diversidade, Gestão Pública e Social, Administração, Economia, Comunicação, Direito, Saúdes, Pedagogia, Licenciaturas, Artes, e Bacharelados Interdisciplinares.
Para inscrição na disciplina é necessário que haja disponibilidade para viagens em cinco finais de semanas com datas a serem definidas.

Calendário
18/08 às 16h: Aula Pública para apresentação do Projeto da ACC. Local: PAF-1 sala 122
24/08 às 16h: Seleção dos alunos a serem matriculados. Local: Instituto de Biologia Salão Nobre
 
A partir de 27/08: Aulas semanais com horário a combinar. Local: Instituto de Biologia, Laboratório Ecomar.

Outras informações: marsol.ufba@gmail.com



domingo, 11 de setembro de 2011

Coalizões de Bloqueio e de Defesa pela Usina Hidrelétrica de Belo Monte

Hidrelétrica de Belo Monte

Por Ana Karine Pereira*

A usina de Belo Monte será construída na bacia do rio Xingu, no estado do Pará. O Xingu é um dos principais afluentes do rio Amazonas e é onde se encontra 14% do potencial hidrelétrico do Brasil. Mais especificamente, o barramento ocorrerá na Volta Grande do Xingu, onde existe uma queda de 96 metros. Belo Monte se localizará próxima a Altamira e da rodovia Transamazônica, numa região caracterizada pela existência de floresta nativa, pecuária e agricultura (Sousa & Reid, 2010).

O projeto da usina prevê o barramento do rio “(…) com a construção de dois canais que desviarão o leito original do rio, com escavações da ordem de grandeza comparáveis ao canal do Panamá” (Fearnside, 2011). O projeto prevê o alagamento de uma área de 516 km2(i). A capacidade energética da usina terá uma média de 4,5 mil MW de energia e deverá ter uma capacidade instalada de 11 mil MW nas épocas de cheia do rio Xingu (Fearnside, 2011). Bermann (2002) afirma que a capacidade total de Belo Monte só será explorada durante três meses do ano por causa da variação do nível do rio, conseqüência da alternância entre os períodos de seca e de chuva. Fearnside (2011) alerta que a energia firme – entendida como a média anual de energia a ser produzida – de Belo Monte girará em torno de 40% de sua potência, o que transformará Belo Monte em uma das usinas de menor eficiência energética do país.
Como conseqüência, a construção de pelo menos mais uma barragem acima do rio Xingu será essencial para regularizar o nível de água do rio, o que garantirá que a produção de energia anunciada pelo governo seja alcançada. Nessa mesma linha, Fearnside (2006) acredita que a divulgação, pelo governo, da área alagada é uma “mentira institucionalizada” ou uma “crise planejada”, já que, como um único barramento no rio Xingu equivalente a uma área de 516 km2 produzirá pouca energia, o governo futuramente vai ser “forçado” a criar outras barragens à montante do rio, aumentando a área alagada. Nas palavras de Fearnside:
“A hidrologia e a economia oferecem fortes indícios para que a história se desenvolva de outra forma, com a construção de mais barragens para aumentar o fluxo de água em Belo Monte na época da vazante. A próxima barragem seria a Babaquara/Altamira, com 6.140km2 pelo plano original” (2011, pág. 2)
O processo decisório sobre a construção de Belo Monte teve início na ditadura militar, quando a Amazônia, especialmente o estado do Pará, alcançava um status privilegiado na agenda governamental e o governo investia em projetos desenvolvimentistas na região. Durante todo esse período, o processo decisório tem sido bastante polêmico e turbulento: o licenciamento ambiental foi interrompido e retomado várias vezes – apenas no período entre 2008 e 2009, ocorreram três interrupções –, além do projeto inicial ter sido modificado como uma tentativa de aumentar a sua aceitabilidade por parte de ambientalistas e da população local. O processo decisório é caracterizado pela presença de diversos atores, que vêm negociando o projeto de Belo Monte por mais de 30 anos (Hochstetler, 2010).

Sousa e Reid (2010) analisam o processo decisório de Belo Monte como extremamente centralizado na burocracia do setor elétrico, composto pela Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL), pelo Organizador Nacional do Sistema (ONS), pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE), pela Eletrobrás e pela Eletronorte. As decisões sobre a construção de novas hidrelétricas seriam compartilhadas entre esses atores a partir de uma análise que foca apenas na necessidade de adequar a oferta de energia a sua demanda crescente. Várias instituições que possuem interesse no processo decisório sobre a política energética do Brasil são excluídas, como é o caso da Agência Nacional de Águas (ANA), responsável pela gestão dos recursos hídricos. A ANA possui pouca influência nesse processo decisório, apesar dela ter responsabilidades diretamente relacionadas com o setor hidrelétrico, como a garantia do uso múltiplo dos recursos hídricos e a aprovação de um certificado de disponibilidade hídrica para projetos de hidrelétricas.
Hochstetler (2010), por outro lado, descreve o processo decisório de Belo Monte como o conflito de interesses entre diversos atores ao identificar coalizões de defesa e de bloqueio. A primeira é formada pelo Conselho Nacional de Política Energética, pela ANEEL e pela Eletrobrás. Esse grupo defende a construção de Belo Monte por acreditar que a energia hidrelétrica é vantajosa para o país por ser mais barata; pelo fato de Belo Monte estar distante da maior hidrelétrica brasileira, Itaipu, o que possibilita complementar o sistema hidrelétrico com uma nova usina que possui o período de variação do nível de água diferente de Itaipu. Além disso, esse grupo insiste na qualidade do projeto: de acordo com o Ministério de Minas e Energia (MME), Belo Monte inundará apenas 0,04 km2 por MW instalado, número inferior a média nacional de 0,44; nenhuma área indígena será inundada; a usina ocupará apenas 0,5% do bioma Amazônico. Esse grupo utiliza o argumento de que Belo Monte é um projeto de interesse estratégico para o país por permitir a manutenção do crescimento econômico brasileiro. Tendo como base esse argumento, a coalizão de defesa realizou alterações nas restrições legais, como a mudança do processo de licenciamento do nível estadual para o federal, a fim de facilitar a aprovação da usina.
A coalizão de bloqueio, por sua vez, é formada por uma rede de atores nacionais e internacionais, representantes do governo e da sociedade civil. Dentre os atores governamentais, especial ênfase deve ser dada ao Ministério público, que interferiu diversas vezes no processo para garantir a sustentabilidade ambiental de Belo Monte e a participação de todos os atores afetados por ele. Dentre os atores da sociedade civil, o Instituto Sócio Ambiental e grupos indígenas têm tido um papel de destaque no processo de negociação. A posição do Ministério do Meio Ambiente (MMA) é polêmica, pois o órgão ora aparece como aliado da coalizão de bloqueio – o órgão publicou várias declarações que apontavam falhas no projeto, como a falta de diálogo com a população indígena atingida – ora como alvo de críticas por conceder licenças ambientais pouco antes de ter criticado vários aspectos do projeto. Os participantes desse grupo são motivados pelo medo das conseqüências sociais e ambientais do projeto, além de serem contra o modelo de desenvolvimento defendido pela coalizão de defesa, guiado principalmente pela necessidade de atender a demanda energética de indústrias eletro-intensivas (Hochstetler, 2010).
Fearnside (2006) também descreve o processo decisório de Belo Monte como o conflito entre dois grupos. O grupo que defende o projeto é composto pelos barrageiros; pelo Ministério de Minas e Energia; pela Eletrobrás e pela Eletronorte; por algumas instituições acadêmicas, como a COPPE (Coordenação de Pesquisa e Pós-Graduação em Engenharia, da Universidade Federal do Rio de Janeiro); por atores internacionais ligados à indústria de alumínio. Contra o projeto são identificados povos indígenas e entidades que lutam pelos seus direitos, como a Comissão Pró-Índio de São Paulo e o Conselho Missionário Indigenista; diversas ONGs nacionais e internacionais (ii); o Ministério do Meio Ambiente, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (IBAMA); instituições acadêmicas como o Núcleo de Altos Estudos da Amazônia, da Universidade do Pará, e o Instituto Nacional de Pesquisas Amazônicas. Para Fearnside (2006; 2011), o principal fator que motiva a defesa de Belo Monte é a necessidade de fornecer energia barata para indústrias metalúrgicas: em 2004, foram divulgados os planos do governo de instalar uma usina de alumínio no Pará com investimentos brasileiros e chineses; as usinas de alumínio Alcoa, americana, e a nipo-brasileira Albrás pretendem aumentar sua produção a partir da utilização da energia proveniente de Belo Monte

Gestão da água é estratégica para o futuro



O 3º Relatório Global das Nações Unidas sobre Desenvolvimento dos Recursos Hídricos, elaborado com a participação da Unesco e divulgado este ano, conclui que a demanda global por água tem aumentado significativamente em função do crescimento e da mobilidade populacional, da elevação do padrão de vida de parte da população e de uma maior produção de alimentos e de energia, incluindo os biocombustíveis. Deve ser considerado ainda o impacto das mudanças climáticas como elemento adicional de perturbação do ciclo hidrológico.
Essas processos têm repercussões na qualidade e na disponibilidade de água, podendo resultar ainda em eventos extremos, tais como secas e enchentes, que muitas vezes são agravados em cenários de estresses hídricos ocasionados pela ação do homem e de conflitos pelo uso já presentes. Também são fatores que merecem atenção o comprometimento dos mananciais por efluentes e a interação da água com o lixo urbano, o que se deve, em países como o Brasil, ao saneamento insuficiente e à ausência de manejo abrangente de resíduos sólidos.
As questões relacionadas à água são também importantes para o desenvolvimento e o bem-estar. Assegurar o acesso a esse bem público de valor econômico e a disponibilidade para todos os usos, conforme previsto na Lei das Águas (Lei 9.433/97), converte-se em um desafio amplificado, cujo trato necessariamente se estende aos sistemas estaduais de gestão de recursos hídricos.
A boa governança no setor recursos hídricos é essencial. Mas deve haver integração com outros setores nos quais também são tomadas decisões que afetam a oferta e a qualidade da água para os usos prioritários, entre eles agricultura e energia – exigindo melhor gestão pública, parcerias e maior prestação de contas à sociedade. Nesse sentido, o Relatório ressalta que alguns países já iniciaram a integração da gestão de recursos hídricos com seus respectivos planos e políticas de desenvolvimento diante de um cenário de escassez.
Entretanto, no caso do Brasil,  ainda restam lacunas na operação dos instrumentos da gestão ambiental e das águas, além de inexistirem iguais recursos e mesmo capacidades técnicas para executá-los plenamente em todas as unidades federativas. Existem órgãos gestores de recursos hídricos mais e menos estruturados, e há estados em que eles inexistem. O Nordeste brasileiro tem áreas com distintos perfis hídricos e impedimentos importantes ao desenvolvimento – e à gestão de águas em particular. A escassez de recursos financeiros é um dos aspectos, ao passo que a qualificação técnica e quadros funcionais suficientes viabilizam as capacidades técnico-institucionais dos órgãos gestores para o cumprimento satisfatório de seus mandatos.
A Unesco é a agência especializada do Sistema Nações Unidas responsável pela capacitação para a gestão dos recursos hídricos, tendo como meta promover a gestão integrada e a revitalização das bacias hidrográficas em situação vulnerável. A estratégia consiste em melhorar as políticas de gestão, criar capacidades técnicas para a boa governança pública em águas e a educação ambiental em todos os níveis, catalisando vias de adaptação nas bacias hidrográficas e nos aqüíferos. Em particular, o planejamento estratégico da Organização visa a aprofundar, nos estados e municípios, os processos de capacitação em gestão de recursos hídricos, construindo competências para o gerenciamento público e privado das bacias hidrográficas, considerando as necessidades de desenvolvimento sustentável do Brasil.
Dessa forma, o planejamento e as ações da Organização são compatíveis com os desafios e as lacunas existentes para a gestão de águas nos estados do Nordeste, havendo convergência de finalidades e pontos de contato no plano das ações. A construção de capacidades técnicas e institucionais para a gestão – que vai além do treinamento e da formação – são o cerne das parcerias possíveis, pois consideramos que investimentos no setor e a execução plena dos instrumentos da Política Nacional de Recursos Hídricos são primordiais para o crescimento econômico e o desenvolvimento social no Brasil.
Fonte: Envolverde/O Autor

Originalmente publicado em: http://www.rts.org.br

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Chê um homem, um mito.






Ernesto "Che" Guevara (Rosário, 14 de junho de 1928[1]La Higuera, 9 de outubro de 1967) foi um político, jornalista, escritor e médico argentino-cubano[2].Guevara foi um dos ideólogos e comandantes que lideraram a Revolução Cubana (1953-1959) que levou a um novo regime político em Cuba.Guevara participou desde então até 1965 na organização do Estado cubano desempenhando vários altos cargos da sua administração e de seu governo, principalmente na área econômica, como presidente do Banco Nacional e Ministro da Indústria, e também na área diplomática, encarregado de várias missões internacionais.
Convencidos da necessidade de estender a luta armada no Terceiro Mundo, Che Guevara impulsionou a instalação de grupos guerrilheiros em vários países da América Latina. Entre 1965 e 1967, lutou no Congo e na Bolívia. Neste último país foi capturado e assassinado de maneira clandestina e sumária pelo exército boliviano em colaboração com a CIA em 9 de outubro de 1967.
A figura desperta grandes paixões na opinião pública a favor e contra, convertendo-se em um símbolo de importância mundial, para muitos dos seus partidários, representa a luta contra a injustiça social ou rebeldia e espírito incorruptível, enquanto ele é visto por muitos dos seus detratores como um criminoso responsável pelo assassinato em massa, acusando-o de má gestão como ministro da Indústria.
Seu retrato fotográfico, obra de Alberto Korda, é uma das imagens mais reproduzidas do mundo, tanto no seu original como em suas variantes que reproduzem os contornos de seu rosto, para uso simbólico, artístico ou publicitário, sendo um dos ícones do movimento contracultural.
Che Guevara foi considerado pela revista norte-americana Time uma das cem personalidades mais importantes do século XX.

 


O pequeno Ernesto, em 1929.
Muitas biografias dizem que Ernesto Rafael Guevara de la Serna nasceu no dia 14 de junho de 1928, mas segundo outras fontes, nasceu no dia 14 de maio de 1928, exatamente um mês antes. Era o mais velho dos cinco filhos de Ernesto Guevara y Lynch (1901–1987) e de Celia de la Serna y Llosa (1906–1965), ambos pertencentes a famílias da classe alta argentina. Um bisavô paterno, Patricio Julián Lynch y Roo (1789 - 1881), grande estancieiro e armador, foi considerado, em seu tempo, como um dos homens mais ricos da América do Sul.
Seus pais alternavam a sua residência da capital de Buenos Aires com a de Caraguatay, na província de Misiones, separados por 1.800 km de hidrovia, onde as plantações de erva mate estavam em sua propriedade. É a partir daqui que se aproxima o momento do nascimento, os pais de Ernesto decidiram voltar a Buenos Aires para que foi devidamente testemunhado, utilizando linhas de navegação que operam no rio Paraná. No entanto, a entrega foi em frente e tiveram que descer no porto de Rosário, onde, no Hospital Centenário, Che Guevara nasceu[5].
O filho foi registrado no dia seguinte com o nome de Ernesto Guevara de la Serna e depois que a mãe recebeu alta, se hospedaram por alguns dias em um apartamento, até que ambos fossem capazes de continuar a viagem para Buenos Aires.
Nos Primeiros anos de Ernesto, ele ia viajando entre as casas que seus pais tinham em Buenos Aires e Caraguatay, indo e vindo em barcos a vapor do rio Paraná, conforme as necessidades de produção de erva-mate e do clima.Ernesto foi apelidado pelos seus pais de Ernestito, para diferenciá-lo do pai, depois de Tete, pelo qual foi apelidado e indistintamente chamado pela sua família e pelos seus amigos de infância.
Em Buenos Aires, moraram nas áreas típicas da classe alta, primeiro no bairro de Palermo (Santa Fe e Guise), em seguida, na cidade de San Isidro (Calle Alem) e, finalmente, no bairro da Recoleta (Sanchez de Bustamante 2286). Vivendo em San Isidro, com dois anos de idade teve o primeiro ataque de asma, uma doença que iria sofrer por toda sua vida e que iria levar a família para ir á Córdoba. O pai sempre culparia a mãe pela asma de Ernesto, atribuindo isso à bronquite agravada pela falta de atenção para com este em uma manhã fria enquanto nadava no aristocrático Clube Náutico San Isidro!
Em Caraguatay, os pais de Ernesto contrataram uma babá para seu filho, Carmen Arias, uma galega que viveria com a família até 1937 e que foi quem lhe deu o apelido de Tete. Da erva dos pais de Ernesto e da estância em Misiones, adquiriu um gosto para mate, que foi sua paixão em toda a sua vida.
Devido à gravidade e persistência da asma afetando Ernesto, a família tentou achar um lugar com um clima mais adequado. Seguindo as recomendações dos médicos, decidiu se mudar para a província de Córdoba, um destino clássico na época para as pessoas com problemas respiratórios, devido às condições meteorológicas e as altitudes mais elevadas. Após passar um tempo na cidade de Córdoba, capital da província, a família estabeleceu-se em Alta Gracia.
Em 1944, os negócios da família de Che vão mal e Ernesto emprega-se como funcionário da Câmara de uma vila nos arredores de Córdoba para ajudar as finanças em casa, sem deixar, contudo, de estudar.

Che em 1945, com 17 anos.
Em 1946, terminou o liceu. Os Guevara mudaram-se para Buenos Aires e Ernesto ingressou na universidade, estudando medicina. Continuando a situação econômica a deteriorar-se, foram obrigados a vender com prejuízo a plantação de mate que tinham desenvolvido. Na capital, Ernesto empregou-se outra vez como funcionário municipal e mais tarde numa tipografia, continuando, não obstante, o curso de medicina. Houve um período durante o qual trabalhou como voluntário num instituto de pesquisas sexuais, então mantido pelo partido comunista. Nesse mesmo ano de 1946, foi chamado ao serviço militar, que, ironicamente, o recusou por inaptidão física.
Depois da Segunda Guerra Mundial, com a vitória dos aliados, a oposição a Juan Domingo Perón ganhou novo ânimo. Os estudantes constituíram a sua camada mais aguerrida. Che participou nessas lutas.
Fez uma viagem, começada de moto e terminada a pé, pelas províncias argentinas de Tucumán, Mendoza, Salta, Jujuy e La Rioja, na qual percorreu diversos resorts Andinos.
E em 1951, seis meses antes de se formar em Medicina, decide interromper o curso - para desespero de seu pai - e iniciar, com Alberto Granado, uma grande viagem pelo continente, de Buenos Aires a Caracas, na velha motocicleta do companheiro, uma Norton 500 cc, fabricada em 1939 e apelidada de La Poderosa II.[8] Nessa viagem, Guevara começa a ver a América Latina como uma única entidade económica e cultural. Visita minas de cobre, povoações indígenas e leprosários, interagindo com a população, especialmente os mais humildes. De volta à Argentina em 1953 acaba os estudos de Medicina e passa a dedicar-se à política.
Em 1953, Guevara atuou como repórter fotográfico cobrindo os Jogos Pan-Americanos do México, por uma agência de notícias argentina. Ainda em julho de 1953, inicia sua segunda viagem pela América Latina. Nessa oportunidade visita Bolívia, Peru, Equador, Colômbia, Panamá, Costa Rica, El Salvador e Guatemala.
Foi por causa da visão de tanta miséria e impotência e das lutas e sofrimentos que presenciou em suas viagens que o jovem médico Ernesto Guevara concluiu que a única maneira de acabar com todas as desigualdades sociais era promovendo mudanças na política administrativa mundial.
Em sua passagem pela Guatemala, onde chegou em dezembro de 1953, Che presencia a luta do recém-eleito presidente Jacob Arbenz Guzmán, liderando um governo de cunho popular, na tentativa de realizar reformas de base, eliminar o latifúndio, diminuir as desigualdades sociais e um dos principais objetivos, garantir a mulher no mercado de trabalho.
O governo americano se opunha a Arbenz e, através da CIA, coordenou várias ações, incluindo o apoio a grupos paramilitares, contra o governo eleito da Guatemala, por não se alinhar à sua política para a América Latina.
As experiências na Guatemala são importantes na construção de sua consciência política. Lá Che Guevara auto define-se um revolucionário e posiciona-se contra o imperialismo americano.
Nesse meio tempo, Che conhece Hilda Gadea, com quem se casa e de cuja união nasce sua primeira filha, Hildita.
Em 1954, no México através de Ñico López, um amigo das lutas na Guatemala, ele conhece Raúl Castro que logo o apresentaria a seu irmão mais velho, Fidel Castro. Esse organiza e lidera o movimento guerrilheiro 26 de Julho, ou M26, em referência ao assalto ao Quartel Moncada, onde em 26 de julho de 1953, Fidel Castro liderou uma ação militar na qual tentava tomar a principal prisão de presos políticos em Santiago. Guevara faz parte dos 72 homens que partem para Cuba em 1956 com Fidel Castro e dos quais só 12 sobreviveriam. É durante esse ataque que Che, após ser duramente espancado pelos rebeldes, larga a maleta médica por uma caixa de munição de um companheiro abatido, um momento que tempos depois ele iria definir como o marco divisor na sua transição de doutor a revolucionário.

Che em 1958
Em seguida eles se instalam nas montanhas da Sierra Maestra de onde iniciam a luta contra o presidente cubano Fulgencio Batista, que era apoiado pelos Estados Unidos.
Os rebeldes lentamente se fortalecem, aumentando seu armamento e angariando apoio e o recrutamento de muitos camponeses, intelectuais e trabalhadores urbanos. Guevara toma a responsabilidade de médico revolucionário, mas, em pouco tempo, foi se tornando naturalmente líder e seguido pelos rebeldes.
Após a vitória dos revolucionários em 1959, Batista exila-se em São Domingos e instaura-se um novo regime em Cuba, de orientação socialista. Mas teria sido a hostilidade dos Estados Unidos que levou ao seu alinhamento com a URSS. (“Eu tinha a maior vontade de entender-me com os Estados Unidos. Até fui lá, falei, expliquei nossos objetivos. (…) Mas os bombardeios, por aviões americanos, de nossas fazendas açucareiras, das nossas cidades; as ameaças de invasão por tropas mercenárias e a ameaça de sanções econômicas constituem agressões à nossa soberania nacional, ao nosso povo”.) (Fidel Castro, a Louis Wiznitzer, enviado especial do Globo a Havana, em entrevista publicada em 24 de março de 1960).

[editar] Governo cubano


Che Guevara em Moscovo
Guevara, então braço direito de Fidel, torna-se um dos principais dirigentes do novo estado cubano: Embaixador, Presidente do Banco Nacional, Ministro da Indústria.
Che esteve oficialmente no Brasil em agosto de 1961, quando foi condecorado pelo então presidente, Jânio Quadros, com a Grã Cruz da ordem Nacional do Cruzeiro do Sul.[9] A outorga dessa condecoração foi o desfecho de uma articulação diplomática, iniciada pelo Núncio apostólico no Brasil, monsenhor Armando Lombardi, seguindo às instruções da Santa Sé, solicitando a ajuda do governo do Brasil para fazer cessar a perseguição movida contra a Igreja Católica em Cuba. Jânio Quadros solicitou a mediação de Che junto a Fidel. Guevara atendeu ao pedido de Jânio e concordou em ser o intermediário do apelo do Vaticano junto ao governo cubano.[10] Meses antes alertara Fidel da existência da "operação Magusto", a invasão da Baía dos Porcos tentada por 1.297 anticastristas exilados, oriundos da ditadura de Fulgêncio Batista. A "operação Magusto" foi uma operação militar planejada pela Agência Central de Inteligência dos Estados Unidos (CIA), autorizada pelo presidente John Kennedy, que ocorreu em 17 de abril de 1961 e foi derrotada três dias depois. Em 1° de maio (ou 16 de abril, segundo outras fontes) Fidel Castro declarou que Cuba se tornaria um país socialista, e buscou apoio militar de Moscovo para se defender das tentativas de invasões americanas e de ameaças representadas por planos dos militares norte-americanos, do tipo da "Operação Mongoose", autorizada em 4 de novembro de 1961 por Kennedy,  ou da "Operação Northwoods" de 196 Em 1° de dezembro de 1961 Fidel Castro declarou que a revolução cubana se tornara marxista-leninista.
Em 8 de agosto de 1961 Che discursou numa reunião da OEA em Punta del Este. Em 1964 Ernesto Che Guevara representou oficialmente Cuba nas Nações Unidas, tendo pronunciado um discurso em francês por ocasião da sua 19ª Assembléia Geral, em 11 de dezembro de 1964. Participou do Seminário Econômico de Solidariedade Afro-asiática entre 22 e 27 de fevereiro de 1965 em Alger, quando criticou publicamente, pela primeira vez, a política externa da União Soviética. Nesse mesmo ano, Guevara, deixa Cuba para propagar os ideais da revolução cubana pelo mundo com ajuda de voluntários de vários países latino americanos, contra os conselhos dos soviéticos mas com o apoio de Fidel Castro. Em 4 de outubro de 1965 Fidel Castro anunciou que Ernesto Che Guevara deixara a ilha para lutar contra o imperialismo.

[editar] Retorno à guerrilha e morte

Ele parte primeiramente para o Congo, na África, com um grupo de 100 cubanos "internacionalistas", tendo chegado em abril de 1965. Comandante supremo da operação, atuou com o codinome Tatu (do suaíle), e encontrou-se com Kabila. Por seu total desconhecimento da região, dos seus costumes, das suas crenças religiosas, das relações inter-tribais e da psicologia de seus habitantes, o "delírio africano" de Che resultou numa total decepção. Em seguida parte para a Bolívia onde tenta estabelecer uma base guerrilheira para lutar pela unificação dos países da América Latina e de onde pretendia invadir a Argentina. Enfrenta dificuldades com o terreno desconhecido, não recebe o apoio do partido comunista boliviano e não consegue conquistar a confiança dos poucos camponeses que moravam na região que escolheu para suas operações, quase desabitada. Nem Che nem nenhum de seus companheiros falavam a língua indígena local. É cercado e capturado em 8 de outubro de 1967 e executado no dia seguinte pelo soldado boliviano Mario Terán, a mando do Coronel Zenteno Anaya e também do vice-presidente René Barrientos, na aldeia de La Higuera. Os boatos que cercaram a execução de Che Guevara levantaram dúvidas sobre a identidade real do guerrilheiro,  que se utilizou de uma miríade de documentos falsos, de vários países, para entrar e viver na Bolívia. A confusão estabelecida em torno do caso culminou no desaparecimento do seu corpo, que só foi encontrado trinta anos depois
Em 1997 seus restos mortais foram encontrados por pesquisadores numa vala comum, junto a outras ossadas, na cidade de Vallegrande, a cerca de 50 km de onde ocorreu a sua execução. Sua ossada estava sem as mãos, que foram amputadas (para servir como troféu) logo após a sua mor.  Seus restos mortais foram transferidos para Cuba, onde em 17 de outubro deste mesmo ano são enterrados com honras de Chefe de Estado, na presença de membros da sua família e do líder cubano e antigo companheiro de revolução Fidel Castro. Encontra-se sepultado no Mausoléu Guevara, Santa Clara, Villa Clara em Cuba.

Guevara em selo postal da Rússia, em comemoração à Revolução Cubana, 2009

[editar] Execuções e campo de trabalhos forçados

Che Guevara liderou pessoalmente os primeiros pelotões de fuzilamento da Revolução Cubana, e fundou o sistema de campos de trabalho forçado de Cuba, sistema que eventualmente seria usado para encarcerar homossexuais, dissidentes e, mais tarde, vítimas de AIDS.
O site do projeto Cuba Archive, uma associação mantida por cubano-americanos sediada em Nova Jersey (EUA), cujo objetivo é contabilizar violações de direitos humanos em Cuba, oferece um levantamento da cifra de fuzilamentos comandados por Ernesto “Che” Guevara. O grupo existe desde 1996, compilando informações com base em documentos oficiais.
Em 17 de fevereiro de 1957 Che executou de maneira sumária o camponês Eutimio Guerra, considerado o primeiro traidor do grupo guerrilheiro em Sierra Maestra:
“Era uma situação incômoda para as pessoas e para [Eutimio], de modo que acabei com o problema dando-lhe um tiro com uma pistola calibre .32 no lado direito do crânio, com o orifício de saída no [lobo] temporal direito. Ele arquejou um pouco e estava morto. Ao tratar de retirar seus pertences, não consegui soltar o relógio, que estava preso ao cinto por uma corrente e então ele me disse, numa voz firme, destituída de medo: ‘Arranque-a fora, garoto, que diferença faz...’. Assim fiz e seus bens agora me pertenciam.

[editar] O campo de concentração latino-americano

De acordo com Jon Lee Anderson, “Era um campo de reabilitação na extremidade ocidental de Cuba, uma zona isolada, pedregosa e infernalmente quente (...) Ali tinham que se submeter a períodos de trabalho físico impessoal, a fim de se redimirem antes de retornarem ao trabalho. As sanções eram “voluntárias” e podiam durar de um mês a um ano, dependendo da falta, geralmente de tipo ético.
Segundo Jorge G. Castañeda: “Foi o Che inclusive quem criou o primeiro “campo de trabalho” em Cuba, naquele período, precisamente em Guanahacabibes. Embora ele próprio tenha passado alguns dias ali, voluntariamente, estava estabelecendo um dos mais odiosos precedentes da Revolução Cubana: o confinamento de dissidentes, homossexuais e, mais tarde, aidéticos. Sua justificação:
"Só em casos duvidosos se envia a Guanahacabibes gente que deveria ir para a cadeia. Eu acredito que quem deve ir para a cadeia deve ir para a cadeia, de qualquer maneira. Seja um velho militante, seja quem for, deve ir para a cadeia. Para Guanahacabibes enviam-se pessoas que não devem ir para a cadeia, gente que atentou contra a moral revolucionária, em maior ou menor grau, com sanções simultâneas de privação de cargos, em outros casos não, sempre como um tipo de reeducação por meio do trabalho. Trabalho duro, não trabalho bestial, mas condições de trabalho duras sem serem bestiais [...]”
Fruto da admiração de Ernesto Che Guevara pela URSS e pela China, Régis Debray, antigo companheiro de guerrilha de Che na Bolívia, faz notar: “Foi ele, e não Fidel, que inventou, em 1960, na península de Guanaha, o primeiro 'campo de trabalho corretivo' (nós diríamos de trabalhos forçados).

[editar] O homem e o mito


Monumento em Cuba baseado na foto Guerrillero heroico, de Alberto Korda
A reprodução da imagem de Che Guevara em camisetas e pôsteres geralmente utiliza uma famosa pintura feita pelo artista plástico irlandês radicado nos Estados Unidos Jim Fitzpatrick a partir da foto tirada por Alberto Diaz Gutiérrez, conhecido profissionalmente como Alberto Korda, divulgada pela revista Paris Match em 1967, pouco antes de sua morte, que se tornou a segunda imagem mais difundida da era contemporânea, atrás apenas de uma imagem de Jesus Cristo. A revista norte-americana Time incluiu Ernesto Che Guevara na sua lista das 100 personalidades mais importantes do século XX, na secção "Líderes e Revolucionários". Na Argentina foi eleito o maior político argentino do século XX, obtendo 59,8% dos votos, em enquete feita por TV.
A imagem do Che é mítica em toda a América Latina. Na localidade onde foi assassinado em 1967, ergue-se atualmente uma estátua em sua homenagem. Ironicamente passou a ser conhecido na região como "San Ernesto de La Higuera" e a ser cultuado como santo pela população local, que o ignorara quando esteve vivo dentre eles. Sua imagem mítica, capturada por Korda e imortalizada no desenho de Fitzpatrick, surge nos locais os mais diversos: em anúncios do banco de investimentos luxemburguês Dexia, num retrato feito com folhas de coca meticulosamente sobrepostas  exibido no gabinete do presidente Evo Morales, em biquines da Companhia Marítima desfilados por Gisele Bündchen] em tatuagens no braço de Maradona e no peito de Mike Tyson.
O regime cubano ainda hoje homenageia Che Guevara, onde é objeto de veneração quase religiosa; as crianças nas escolas cantam: "Pioneros por el comunismo, Seremos como el Che". Seu mausoléu em Santa Clara atrai, todos os anos, milhares de visitantes, muitos dos quais estrangeiros]

Estátua em bronze em Rosário
Para alguns historiadores essa glorificação messiânica é injustificável. Para eles, longe de ser um humanista, Che Guevara aprovou pessoalmente centenas de execuções sumárias pelo tribunal revolucionário de Havana. Como procurador-geral, foi comandante da prisão Fortaleza de San Carlos de La Cabaña, onde, nos primeiros meses da revolução, ocorreram 120 fuzilamentos. Ele mesmo escreveu: "As execuções são uma necessidade para o Povo de Cuba, e um dever imposto por esse mesmo Povo.". Os "campos de trabalho coletivos", na península de Guanaha (campos cubanos de trabalhos forçados) foram uma criação sua. O próprio Che Guevara nunca fez segredo de que acreditava ser a luta armada a solução para os problemas que denunciava: " Como poderíamos contemplar o futuro luminoso e próximo se dois, três, muitos Vietnams desabrochassem na superfície do globo, com sua cota de mortes e suas tragédias imensas, com seu heroismo cotidiano, com seus golpes repetidos ao imperialismo, com a obrigação que lhe traz de dispersar suas forças, sob o ódio crescente dos povos do mundo !"]  Mas se por um lado advogava a violência da luta armada, como meio de atingir seus objetivos, por outro Che manifestava preocupação pela ética. Numa famosa entrevista com o jornalista Jean Daniel (L'Express, 25 de Julho de 1963, p. 9.), Che dizia: "O socialismo económico sem a moral comunista não me interessa. Lutamos contra a miséria, mas ao mesmo tempo contra a alienação. (…) Se o comunismo passa por alto os factos da consciência, poderá ser um método de repartição, mas já não é uma moral revolucionária".Sobre a liberdade de pensamento disse: "Não é possível destruir uma opinião com a força, porque isso bloqueia todo o desenvolvimento livre da inteligência."(Che Guevara, "Il piano i gli uomini", Il Manifesto n° 7, deciembre del 1969, p. 37.). Em seu livro Socialism and Man in Cuba, expôs seu ideais de revolucionário: "Deixe dizer-lhe, com o risco de parecer ridículo, que o revolucionário verdadeiro está guiado por grandes sentimentos de amor. É impossível pensar num revolucionário autêntico sem esta qualidade. Quiçá seja um dos grandes dramas do dirigente(…) Nessas condições, há que se ter uma grande dose de humanidade, uma grande dose de sentido da justiça e de verdade para não caírmos em extremos dogmáticos, em escolasticismos frios, no isolamento das massas. Todos os dias temos que lutar para que esse amor à humanidade vivente se transforme em fatos concretos, em atos que sirvam de exemplo, de mobilização.

[editar] A trilha de Che - empreendimento turístico

Com um investimento de 611 mil dólares e um projeto trianual - que foi parcialmente financiado pela governo da Inglaterra através do seu Departamento de Desenvolvimento Internacional - o governo boliviano procura incentivar o turismo na região por onde Che Guevara passou, e onde encontrou sua morte. Para isso foi criada uma trilha turística, a "trilha de Che", que seguindo suas pegadas, inicia-se, por rodovia, em Santa Cruz de la Sierra, atravessa a localidade inca de Samaipata, e prossegue pelos vilarejos Vallegrande e La Higuera. Essa trilha turística busca levar o turismo internacional de massas a esse distante rincão das selvas bolívianas, aproveitando o mito Che Guevara.

[editar] Filme biográfico Diarios de Motocicleta (2004)


Na Sierra Maestra com Raúl Castro
Em 2004 foi apresentado um filme, Diarios de Motocicleta, dirigido Walter Salles, nos gêneros aventura e drama biográfico, cujo roteiro foi baseado nos livros de Ernesto "Che" Guevara de La Serna (Notas de viaje) e Alberto Granado (Con el Che por America), contando a aventura desses então dois colegas universitários na travessia do continente sul-americano numa velha motocicleta Norton 500 cc, fabricada em 1939 e apelidada de La Poderosa II]. numa viagem que se estendeu de Buenos Aires a Caracas.

[editar] Filme épico Che apresentado no 61° Festival de Cannes

Em 2008 foi exibido um filme-acontecimento do 61º Festival de Cannes, intitulado "Che", de Steven Soderbergh, com 4h28 de duração, em duas partes .
Na primeira metade descreve a participação de Che na Revolução Cubana (1959) e avança até o discurso do guerrilheiro na ONU, em 1964. A segunda parte de "Che" se concentra nos 341 dias que ele passou na selva boliviana, treinando guerrilheiros, até sua morte, em outubro de 1967.
"… há muitos aspectos da vida de Che que as pessoas não conhecem. Se contássemos o que ocorreu na Bolívia sem mostrar o que houve antes, não haveria o contexto para entender a história." disse Soderbergh. Sobre os que desaprovam o fato do filme "Che" retratar um perfil positivo do guerrilheiro e favorável às suas ações, Soderbergh afirmou: "Conheço bem a argumentação dos que são anti-Che e sei que qualquer quantidade de barbaridades que incluíssemos nesse filme não seria suficiente para satisfazê-los".