segunda-feira, 4 de novembro de 2013


O Território brasileiro: do passado ao presente

Milton Santos e Maria Laura Silveira
Por -  Marcos Barros

Uma das características mais marcantes do Brasil é sua extensão territorial, que durante quatrocentos anos foi se ampliando com a conquista dos sertões, a presença na bacia amazônica e a remodelação das fronteiras, sendo o séc. XX um período de estabilização territorial. Desse modo que o Brasil hoje possui um território fisiograficamente diferenciado, com grande variedade de sistemas naturais. Durante pelo menos três séculos o povoamento acontece mediante um emprego pequeno de recursos da técnica, dado aos escassos recursos instrumentais, como as máquinas existentes na época, o que levava o homem a buscar soluções na própria natureza dado aos condicionamentos que a mesma impunha. Só com a expansão das técnicas instaladas através da atividade canavieira que um novo período se inaugura. Com a chegada do século XX a vocação industrial do país se afirma numa relação direta com a concentração das populações fazendo-se presentes em diversos estados como, Bahia, Rio de Janeiro, São Paulo, etc. Nesse contexto que o Eixo Rio - São Paulo desponta como uma área de produção industrial permitindo uma diversificação da produção fabril beneficiando também os estados do sul. Nesse processo de industrialização é que se forma a região hoje conhecida como concentrada e que dificuldades dado o seu caráter de mobilização limitado em relação as demais regiões,  não   propiciam uma integração econômica maior com o restante do território. Dessa forma a existência de uma região concentrada pesa sobre a vida nacional agravando as diferenças nacionais. È nesse pano de fundo que vão se operar as transformações mais recentes, marcadas pela globalização mundial. A dinâmica globalizante não apaga o passado, mas modifica seu significado, agravam-se as diferenças e disparidades, devidas aos novos dinamismos e a outras formas de poder e dominação. Com a globalização são instalados nexos extravertidos na medida em que havendo a política econômica deixado de privilegiar o mercado interno a necessidade de exportar conduz a um a competitividade que só privilegia as empresas globais em detrimento dos interesses da sociedade local ou nacional. A historia europeia dos atuais países subdesenvolvidos mostra a sua participação numa divisão do trabalho comandada, de um lado pelas pressões das relações internacionais e de outro pelas facilidades oferecidas pelo território, povoamento e políticas que dão entrada esse ou aquele produto. Assim a divisão internacional do trabalho respondia por um processo de internacionalização limitada em função das relações entre os estados, onde a instância política ascende sobre a instância econômica. Mas com a globalização, a divisão internacional do trabalho ganha novos dinamismos nos países subdesenvolvidos, onde passa a vigorar a lógica das grandes empresas, o discurso do mercado global faz pensar que essa entidade dita universal atua sobre todo o mundo ou sobre todos os países. O caso do Brasil ilustra perfeitamente a ideia segundo a qual com a presente globalização, o território de um país pode tornar-se um espaço nacional da economia internacional (M.Santos,1996). A economia dos países conhece então um processo mais vasto e profundo de internacionalização tendo como base um espaço que é nacional. De modo geral e como resultado da globalização da economia o espaço nacional é organizado para servir as grandes empresas hegemônicas e paga por isso um preço, tornando-se fragmentado, incoerente e anárquico para com seu povo.

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

A geografia da acumulação por despossessão

http://www.teoriaedebate.org.br/materias/internacional/geografia-da-acumulacao-por-despossessao

  • Edição 116
  • 27 setembro 2013

  •  Profº José Antonio Lobo dos Santos


  • A reestruturação do capitalismo fragiliza o Estado na capacidade de promover reformas que garantam direitos sociais e desmantela o poder de compra dos trabalhadores. A lógica é manter um padrão de acumulação de capital adaptado ao contexto socioespacial de cada parte do globo terrestre.

    Movimento do grande capital provoca uma grande onda de desemprego em países euro
    Movimento do grande capital provoca onda de desemprego em países europeus como na Espanha
    Foto: Susana Vera/Reuters


    A crise econômica de 2008, que continua se expandindo pelo globo, se manifesta de forma perversa dentro de uma lógica fundamentada na ampliação da política neoliberal e na concentração de capitais mediante despossessões, fusões e incorporações. Essa crise, como processo de reestruturação do sistema capitalista, contribui para o aprofundamento mundial do neoliberalismo como doutrina sociopolítica, destrói empregos, concentra capital, aumenta significativamente a inflação e busca reduzir o poder de mobilização da classe trabalhadora.


    Os efeitos de uma reestruturação capitalista por desregulamentação e livre atuação de agentes hegemônicos do capital provocam o que o renomado geógrafo britânico David Harvey chama de acumulação por despossessão. Perdas de ativos que vão parar nas mãos de especuladores, perda da capacidade de consumo, perda da capacidade do Estado de construir infraestrutura social e perda do poder de compra dos trabalhadores mediante aumento da inflação e congelamento de salários são sintomas visíveis desse processo.



    A despossessão fragiliza o Estado, pois restringe sua atuação como provedor de reformas voltadas à construção de infraestruturas sociais e redistribuição de renda. Fragiliza os trabalhadores, corroendo salários, aumentando o desemprego e reduzindo a capacidade de articulação dos sindicatos. Por outro lado, fortalece a acumulação de capitais por meio da concentração de renda em mãos de grandes capitalistas e exacerba o poder social do dinheiro como instrumento de controle dos Estados e dos trabalhadores em uma escala global.



    Em sintonia com David Harvey, o professor Milton Santos também põe o dinheiro na centralidade do processo de globalização do capital. Para ele, o dinheiro em estado puro e os grandes conglomerados da mídia têm papel essencial no processo de reestruturação do modo capitalista de produção. Essa reestruturação vem pautada por uma agenda globalitária impositiva, na qual os países pobres são forçados a mergulhar numa lógica de perversidade fundamentada na ampliação do poder de decisão dos conglomerados internacionais sediados nos países ricos e na limitação do poder de ação dos Estados e de parte das organizações populares.

    segunda-feira, 30 de setembro de 2013

    É A ESTE POVO POBRE E SOFRIDO DO NOSSO PAÍS QUE AS POLITICAS PÚBLICAS SOCIAIS ATENDEM E DEVEMOS LUTAR PARA PRESERVA-LAS

    SEVERINAS: AS NOVAS MULHERES DO SERTÃO

    Titulares do Bolsa Família, as sertanejas estão começando a transformar seus papéis na família e na sociedade do interior do Piauí e se libertando da servidão ao homem, milenar como a miséria
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    “Cada um tem que saber o seu lugar: a mulher tem qualidade inferior, o homem tem qualidade superior.” É bem assim que fala, sem rodeios, um dos homens mais respeitados do município de Guaribas, no sertão do Piauí, pai de sete filhos (seis mulheres e um homem). “O homem é o gigante da mulher”, completa “Chefe”, como é conhecido Horacio Alves da Rocha na comunidade.
    Para chegar a Guaribas são dez horas desde a capital, Teresina, até a cidadezinha de Caracol. Dali, 40 minutos de estrada de terra cercada de caatinga até o jovem município, fundado em 1997. Em 2003, Guaribas foi escolhida como piloto do programa Fome Zero. Tinha então o segundo pior IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) do Brasil, 0,214 – para efeito de comparação, o país com pior IDH do mundo é Burundi, na África com índice 0,355. Hoje, Guaribas tem 4.401 habitantes, 87% deles recebendo o Bolsa Família. São 933 famílias beneficiadas, com renda média mensal de R$ 182. O IDH saltou para 0,508.
    Em todo o Brasil, o Bolsa Família atende a 13,7 milhões de famílias – sendo que 93,2% dos cartões estão em nome de mulheres. São elas que recebem e distribuem a renda familiar.
    “Eu vivi a escravidão”, diz Luzia Alves Rocha, 31 anos, uma das seis filhas de Chefe. Aos três meses, muito doente, ela foi dada pelo pai para os avós criarem. Quando eles morreram, uma tia assumiu a menina. “Achei que ela não ia aguentar aquela vida de roça: era vida aquilo?”, pergunta a tia Delci. Luzia trabalhou na roça, passou fome, perdeu madrugadas subindo a serra para talvez voltar com água na cabaça. “Quando tinha comida a gente comia, se não, dormia igual passarinho”, diz. Trabalhava sem salário, sem nenhum direito trabalhista, sem saber como seria a vida se a seca não passasse e a chuva não regasse o feijão e a mandioca. Era “a escravidão”.
    Quando a seca piorou, Luzia pensou em migrar para São Paulo. Foi então que chegou o programa social do governo: “Com esta ajudinha já consigo levar”, diz. Luzia decidiu ficar em Guaribas. Os filhos estudam. O marido e ela cuidam da roça.
    “A libertação da ‘ditadura da miséria’ e do controle masculino familiar amplo sobre seus destinos permite às mulheres um mínimo de programação da própria vida e, nesta medida, possibilita-lhes o começo da autonomização de sua vida moral. O último elemento é fundante da cidadania”, analisam os pesquisadores Walquiria Leão Rego e Alessandro Pinzani, da Universidade de Campinas e da Universidade Federal de Santa Catarinas, no livro Vozes do Bolsa Família: Autonomia, dinheiro e cidadania. Durante a pesquisa, eles ouviram beneficiários do programa observando as transformações decorrentes do Bolsa-Família – em especial na vida das mulheres. Chegaram à conclusão que a mudança é grande: “Quando você tem um patamar de igualdade mínimo, você muda a sociedade. Claro que as coisas não são automáticas. Isto não pode ser posto como salvação da nação, mas é um começo.”
    Luzia conseguiu realizar o sonho de diversas das mulheres ouvidas pela socióloga Walquiria Leão. Ela juntou R$ 50 e seguiu para o hospital da cidade vizinha, de São Raimundo Nonato para fazer laqueadura das trompas: “se tivesse mais filho a vida ia ser mais pior”. Segundo Walquíria, o desejo de controlar a natalidade foi manifestado por diversas das mulheres que ela entrevistou entre 2006 e 2011 em Alagoas, Vale do Jequitinhonha, Piauí, Maranhão e Pernambuco.
    Serena, uma das filhas de Luzia, tem 8 anos e está na terceira série. Ela ajuda a arrumar a casa, já sabe cozinhar, ajuda na roça. Mas não perde suas aulas. Logo depois de cantar o alfabeto e os números, diz que quer ser “advogada e médica”. Quando perguntada sobre casamento, a pequena afirma, com a mão na cintura: “eu não vou casar, vou ser sol-tei-ra…”, diz, demorando nas sílabas.
    Em maio o valor do Bolsa Família de Luzia saltou de R$ 70 reais para R$ 212. A mãe comemora: “Agora já posso comprar as coisas para minha filha: a sandália dela arrebentou e pude comprar outra”. No pé da menima, o calçado que custou R$ 7,50. “Primeiro comprei para a menina, num outro mês compro pra mim”, explica Luzia, com os pés descalços.

    “MINHA SINA”

    Do outro lado do vale que liga o centro de Guaribas ao bairro Fazenda, Norma Alves Duarte, 44 anos, vive numa casa de dois quartos. Na sala, paredes mal rebocadas mostram as marcas da massa corrida. No canto, um pequeno móvel com uma TV. A vida toda ela ajudou a mãe doente, quase não estudou – cursou até a segunda série. Como todas as mulheres dali, as atividades de criança incluíam colher feijão, pegar lenha e buscar água no olho d’água, que fica a dois quilômetros.
    Norma tem 12 irmãos, 2 filhos e vive com o segundo marido – o primeiro a abandonou depois de 20 dias. “Era pau e cachaça. Aí depois arrumei o pai destes meninos. É bom mas é doido, vaidoso o velho, bebedor… Ele é bruto demais, ignorante que só. Fazer o que né? Destino é destino: quem traz uma sina tem que cumprir.”
    “Esta palavra, sina, faz parte do que nós chamamos de cultura da resignação e acho que ela foi de fato rompida com o Bolsa Familia”, diz a socióloga Walquiria Leão.
    No início do programa, Norma ganhava R$ 42 com seu cartão. Agora “tira” R$ 200. “Mudou, porque eu pego meu dinheirinho, compro minhas coisas, assim mesmo ele (o marido) xingando. Eu não dou ele, ele tem o dele. Ele não me dá nenhum real, bota para comer dentro de casa mas não me dá nem um real, nem dez centavos.” Para Walquíria Leão, “a renda liberta a pessoa de relações privadas opressoras e de controles pessoais sobre sua intimidade, pois a conforma em uma função social determinada, permitindo-lhe mais movimentação e, portanto, novas experiências”.

    MAIS DIVÓRCIOS

    Ao saírem da miséria, “da espera resignada pela morte por fome e doenças ligadas à pobreza”, nas palavras de Walquiria, estas mulheres começam a protagonizar suas vidas.
    No vilarejo de Cajueiro, a uma hora do centro de Guaribas por uma estrada de terra esburacada, a água ainda não chegou às casas. Elenilde Ribeiro, 39 anos, caminha com a sobrinha por um areial com a lata na cabeça, outra na mão. É ela quem cria a menina. “Não quero que ela sofra como eu sofri”, diz. Chegando na casa, o capricho se mostra nos paninhos embaixo de copos metálicos, na estante com fotos de família, o brasão do Palmeiras, e um gato de louça ao lado da imagem de Jesus. Do lado de fora, o banheiro – onde se usa caneca e penico –, um pátio bem varrido, uma horta suspensa, e uma pilha de lenha que Elenilde mesma coleta e quebra, apontando: “está aqui meu botijão de gás”.
    Os olhos de Elenilde marejam quando conta ter sido abandonada pelo marido há treze anos, mas seu tom de voz muda ao falar do papel da renda em sua vida. “Tiro R$ 134 no meu cartão Bolsa Família mas para mim está sendo mil. Porque com este dinheirinho eu tenho o dinheiro certo para comprar (na venda) e o dono me confia. E eu sei que com isso, com ele me confiar, eu já estou comendo a mais”, explica. Elenilde também se livrou de trabalhar na roça dos outros em troca de uma diária de R$ 5. “Eu quando pego o meu dinheiro (do cartão) vou na venda, pago a conta mais velha e espero pela vontade do vindião, aí ele vai e me franqueia… E eu vou e compro de novo”. Segundo Walquíria Leão, isso tem ajudado a mulher a conquistar um novo papel na comunidade. “A experiência anterior de vida era sempre de ser desrespeitada, desconsiderada porque ela não tinha dinheiro”.
    No final da mesma rua, Domingas Pereira da Lima, 28 anos, não se arrepende de ter abandonado o marido. “Ele ficava namorando com uma e com outra e eu num resisti, vim embora”. Prendendo o choro, ela continua: “Deixava eu com as crianças e se tacava no meio do mundo. A vida não é fácil mas vou levando a vida devagarzinho aqui.” Desde então, Domingas cuida dos quatro filhos com o apoio das irmãs e da mãe.
    Em 2003, quando chegou o Fome Zero, foram solicitados 993 divórcios no Piauí. Em 2011 o número saltou para 1.689 casos. Dos casos não consensuais, 134 foram requeridos por mulheres em 2003; em 2011 esse número saltou para 413 – um aumento de 308%.
    Ainda assim, na pequena Guaribas, a mulher ficar presa em casa em dias de festa, o alcoolismo e a infidelidade masculina são histórias contadas com naturalidade. “Vixi, aqui se conta nos dedos as mulheres que não apanham do marido”, é comum as mulheres dizerem.
    Na delegacia da cidadezinha, o delegado explica que por ali o clima é sempre “muito tranquilo, sem nenhuma ocorrência. Só umas brigas de casal, coisa que a gente aconselha e eles voltam” diz.
    Mirele Aline Alves da Rocha é uma das que se conta nos dedos. Aos 18 anos, a bonita jovem explica: “Apesar da minha idade já ser avançada para os daqui, eu não estou nem aí para o que eles falam. Eu quero é estudar”. A maioria das amigas se casaram aos 13 anos. Já Mirele, soteira, cursa o terceiro ano do Ensino Médio na escola estadual de Guaribas, onde vive com a tia – os pais moram no município de Cajueiro. O cartão do Bolsa Família está no nome da mãe, que recebe R$ 102 por Mirele e pelo caçula de nove anos. Ambos estudam. “Eu vejo a realidade da minha mãe e não quero seguir pelo mesmo caminho. Eu quero estudar para ter um futuro, para ser independente, para não ficar dependendo de um homem”, decreta a jovem.
    No primeiro bimestre de 2013, em Guaribas, a frequência escolar atingiu o percentual de 96,23%, para crianças e adolescentes entre 6 e 15 anos – o equivalente a 869 alunos – e 82,29% para os jovens entre 16 e 17 anos, de um total de 175.
    Mirele vai fazer o Enem e “ver o que dá”. Para cursar faculdade ela terá que sair de Guaribas mas planeja se graduar e voltar: “Gosto mesmo é daqui”.
    “Nunca é demais lembrar que nossa pobreza não é um fato contingente, mas deita raízes profundas na nossa história e na forma de conduzir politicamente as decisões estatais”, avalia Walquiria. “O Bolsa Família deveria se transformar em política publica, não mais política de um governo”. “É um processo, um avanço que mal começou. E ainda é muito insuficiente. Mas quem narra uma história tem que ser capaz de narrar todos os passos desta história”, finaliza.

    domingo, 25 de agosto de 2013

    CAPITALISMO / ACUMULAÇÃO = INJUSTIÇA SOCIAL, POBREZA E MISÉRIA


    A incrível pirâmide da desigualdade global


    130626-PirâmideGlobal

    Milionários são apenas 0,6% da população, mas abocanham doze vezes mais riqueza que 69,3% dos habitantes da Terra. Concentração e consumismo podem tornar civilização insustentável
    Por José Eustáquio Diniz Alves, no EcoDeabte
    O relatório sobre a riqueza global, em 2012, do banco Credit Suisse (The Credit Suisse Global Wealth Report 2012) traz um quadro bastante amplo e esclarecedor da distribuição da riqueza (patrimônio) das pessoas adultas do mundo. A riqueza global foi estimada em US$ 223 trilhões em 2012 (meados do ano). Como havia 4,59 bilhões de pessoas adultas no mundo, a riqueza per capita por adulto foi de US$ 49 mil.
    Mas, evidentemente, existe uma distribuição desigual desta riqueza. Na base da pirâmide estão as pessoas com a riqueza menor do que 10 mil dólares. Nesta imensa base havia 3,184 bilhões de adultos, em 2012, o que representava 69,3% do total de pessoas na maioridade no mundo. O montante de toda a “riqueza” deste enorme contingente foi de US$ 7,3 trilhões, o que representava somente 3,3% da riqueza global de US$ 223 trilhões. Ou seja, pouco mais de dois terços (2/3) dos adultos do mundo possuíam somente 3,3% do patrimônio global da riqueza. A riqueza per capita deste grupo foi de US$ 2.293.
    No grupo de riqueza entre US$ 10 mil e US$ 100 mil, havia 1,035 bilhão de adultos, o que representava 22,5% do total de pessoas adultas no mundo. O montante de toda a riqueza deste contingente intermediário foi de US$ 32,1 trilhões, o que representava 14,4% da riqueza global. Ou seja, pouco menos de um quarto (1/4) dos adultos do mundo possuíam 14,4% do patrimônio global da riqueza. A riqueza per capita deste grupo foi de US$ 31 mil.
    No grupo de riqueza entre cem mil e 1 milhão de dólares, havia 344 milhões de adultos, o que representava 7,5% do total de pessoas na maioridade no mundo. O montante de toda a riqueza deste contingente intermediário foi de US$ 95,9 trilhões, o que representava 43,1% da riqueza global. Ou seja, pouco menos de um décimo (1/10) dos adultos do mundo possuíam 43,1% do patrimônio global da riqueza. A riqueza per capita deste grupo foi de US$ 279 mil.
    Os milionários, aqueles com patrimônio acima de um milhão de dólares eram somente 29 milhões de adultos, representando 0,6% do total, no mundo. Todavia, este pequeno grupo de pessoas concentrava 39,3% da riqueza mundial, um montante de US$ 87,5 trilhões, o que representava 39,3% da riqueza global. A riqueza per capita deste grupo foi de US$ 3,017 milhões.
    O que mais chama a atenção na distribuição da riqueza é que os 29 milhões de adultos do alto da pirâmide possuíam um patrimônio superior a 12 vezes o patrimônio da base de 3,2 bilhões de pessoas. Os dados também mostram que os contingentes intermediários estão crescendo e que a riqueza global aumentou no passado e tende a aumentar nas próximas décadas. Em 2000, na virada do milênio, a riqueza global era de US$ 113,4 trilhões, uma média de US$ 30,7 mil por adulto, em um total de 3,6 bilhões de pessoas na situação de maioridade.
    Contudo, todo o montante atual de US$ 223 trilhões de riqueza para 4,6 bilhões de adultos, em 2012, está sustentado em bases frágeis, pois a riqueza do ser humano (em sua forma piramidal) está alicerçada sobre bases naturais degradas pelas atividades antrópicas. A pirâmide da riqueza humana tem crescido e se ampliado sobre uma base de pauperização dos ecossistemas. Não é improvável, que em algum momento, a pirâmide possa afundar por falta de sustentação ecológica ou possa implodir por falta de justiça redistributiva em sua arquitetura social.
    Enquanto o capital natural tem sido depredado, a riqueza global (e o consumo) dos seres humanos cresceu cerca de 50% no século 21, passando de uma média per capita de US$ 30,7 mil no ano 2000, para US$ 43,8 mil em 2010 e para US$ 49 mil, em 2012. Todavia, as necessidades e os sonhos humanos são ilimitados e os de baixo da pirâmide aspiram o padrão de consumo daqueles do meio e do topo do status social. Mas é impossível haver um crescimento ilimitado da riqueza material em um planeta finito e a história mostra que, em vários momentos, pirâmides que pareciam sólidas se transformam em castelos de areia.
    Não é sem surpresa que os indignados do mundo estão se unindo, se mobilizando e corroendo as estruturas piramidais das sociedades árabes, espanhola, europeia, dos Estados Unidos, etc. Também não é sem surpresa que a indignação tenha chegado ao Brasil, pois existe um mal-estar geral com o modelo de desenvolvimento econômico, com o funcionamento da democracia, com a imobilidade urbana e social e com a relação humanidade/natureza. Evidentemente, este mal-estar aparece de maneira difusa e sem alternativas claras de novos rumos.
    Mas o que o mundo precisa não é manter o processo de ampliação da pirâmide da riqueza e do consumo e, sim, construir relações mais horizontais, simples e justas entre as pessoas e entre as pessoas e o meio ambiente.

    José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado em Estudos Populacionaise Pesquisas Sociais da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

    segunda-feira, 17 de junho de 2013

     A MUNDIALIZAÇÃO DO CAPITALISMO E A GEOPOLITICA MUNDIAL NO FIM SÉCULO XX (Ariovaldo Umbelino de Oliveira).
    Por:  Marcos Barros

    Com o fim do bloco socialista na década de 80 que perdurou durante a Guerra Fria, a característica marcante do mundo passou a ser a mundialização do capital. Consolidou-se os oligopólios internacionais por meio das multinacionais, favorecidas pela necessidade de movimentos internacionais de capitais, produção capitalista internacional e ações de governos em nível internacional. Assim os fluxos internacionais de capitais privados passaram a crescer mais que os investimentos diretos feitos pelas multinacionais, fortalecendo o mercado financeiro, aliando o capital  nacional ao capital estrangeiro.

    Garantindo a competitividade a produção de bens e serviços passam a ser internacional, dessa forma a força de trabalho usada pelos Oligopólios fica fora do país onde esta situada os escritórios sedes dessas empresas. Ações governamentais são observadas tanto na intervenção dos mesmos na economia como na elaboração de projetos de cooperação mutuas entre as nações. Essa união de capital financeiro e força de trabalho mundializada diminui a independência das nações e propicia a formação de instituições internacionais para administrar a dependência crescente. A internacionalização do capital promove a integração entre países de todo conhecimento técnico produzido, bem como dos recursos naturais e da produção dos bens e serviços.

    Entretanto a mundialização do capitalismo é um fenômeno recente na economia, formando um conjunto de processos que dão condições para se produzir, distribuir e consumir produtos e serviços numa escala mundial. Esses processos criam novas formas para as relações entre os Estados e as empresas multinacionais permitindo que as empresas se auto administrem dentro da economia mundial, e por sua vez as empresas necessitando da legitimação dos Estados para garantir a ordem local, regulando a economia nacional e desenvolvendo políticas de cunho sociais. Nesse contexto o capitalismo não se concentra apenas nos países ricos, ele se espalha por todos os centros onde as empresas multinacionais atuem, originando uma nova ordem econômica e política mundial, junto a essa nova ordem desenvolve-se também uma nova divisão do trabalho, refletindo na divisão das nações em países altamente industrializados, parcialmente industrializados e os de economia subdesenvolvida.


    Essa nova forma de capital mundial provoca também a formação de blocos econômicos entre diversas nações objetivando preservarem suas economias e fomentarem seu mercado interno, atraindo também novos mercados estrangeiros para seus produtos. Configura-se ai um mundo altamente interligado, industrializado, tecnológico e informacional mas cujo processo de mundialização apresenta-se excludente e perverso ampliando a pobreza e a fome, e aumentando em escala global a acumulação dos capitais em mãos de poucos grupos empresariais, criando uma divisão simplista entre pobre e ricos mascarando assim as próprias contradições fundamentais da sociedade capitalista.

    quinta-feira, 14 de março de 2013



    Região e Regionalização: A Trajetória de um Debate  –  REGIONAL GLOBAL  –  (Rogério Haesbaert)

    Por: Marcos Barros


    “Não pensamos que a região haja desaparecido. O que esmaeceu foi a nossa capacidade de reinterpretar e de reconhecer o espaço em suas divisões e recortes atuais, desafiando-nos a exercer plenamente aquela tarefa permanentemente dos intelectuais, isto é, a atualização dos conceitos”.    (Santos, 1994:102)                                                                                                     

    O autor procura problematizar o tema Região e Regionalização sem se preocupar com as diversas conceituações dadas pelas correntes geográficas, procurando dar ênfase à produção do conhecimento e a necessidade de se fazer recortes do espaço para efeitos de estudos.  Para tal ele busca o pensamento de diversos geógrafos e pensadores da geografia, tais como La Blache, Sauer, Hartshorne procurando através da evolução do conceito de região respostas para a problemática disposta e formas de se entender e utilizar esses conceitos no paradigma atual que vivenciamos.  Ver a região não apenas como um recorte espacial, mas como algo dinâmico e de múltiplas escalas.
    Para ele mesmo com a globalização e sua homogeneização existe uma reconstrução da heterogeneidade e da fragmentação, dada ás novas desigualdades e diferenças que surgem em todos os cantos do planeta, o que proporciona um retorno ás singularidades e ao especifico. Isso também pode ser evidenciado na proliferação das geografias regionais populares, bem como no discurso da mídia e na formação do senso comum.
    Suas reflexões também nos traz a discussão da questão regional fora do âmbito da geografia, discussão esta feita pelas diversas ciências sociais tais como a Antropologia, História, Sociologia, passando também pelas ciências naturais onde conceitos como de Biorregião tem sido amplamente discutidos.
    Num panorama em que muitos preconizam o fim da região, do território, ou mesmo da Geografia, por conta de um processo global de expansão dos mercados, mas que gera pobreza e exclusão social, criando e recriando fatos políticos, o conceito de região torna-se fundamental na análise das questões sociais e no pensar da Geografia como ciência humana. E é nesse contexto que ele reproduz Gilbert (1988) “(...) os geógrafos estão redescobrindo o estudo do especifico”.
    Haesbaert, traça um longo caminho antes de chegar a novas concepções da Geografia Regional contemporânea, fazendo um estudo sobre a origem etimológica do termo região e os primórdios de formação da Geografia Regional.  É na origem do termo região que observa uma grande polissemia de entendimentos, que perpassa desde a ideia de recorte ou parte do todo que são sugeridas nas definições “esfera de domínio de algo” ou “espaço ocupado por alguma coisa”, até a relação de poder vinculada a raiz do termo “regere” comandar. É fazendo uma reflexão sobre os diferentes recortes do tempo e espaço que ele (o autor) nos diz que pensar em região, antes de tudo é pensar nos processos de regionalização seja como simples procedimento metodológico ou dinâmica vivida e produzida pelos grupos sociais.
    “Região: dos primórdios ao período hegemônico”, é nessa viagem pelo tempo que Haesbaert busca o pensamento de diversos geógrafos e suas concepções de regionalização e região, citando Hartshorne e sua clássica obra “A Natureza da Geografia” como sendo pioneira nas reflexões teóricas sobre a transformação do pensamento regional, ou na própria construção da geografia moderna. Referencias também são feitas aos modelos geográficos de Estrabão e Ptolomeu que embora considerados opostos já apresentava claramente diferenciações entre a Geografia geral e regional.
    Por fim ele nos coloca que considerando a trajetória ao longo da historia do pensamento geográfico, facilmente identifica-se fases de um rico processo de construção, destruição e reconstrução do conceito de região. E é nesse percurso conceitual que ele coloca a intencionalidade de seu trabalho de retomar de maneira sucinta este debate, priorizando os momentos de ruptura ou os momentos em que de alguma forma foi decretada a morte da região. Expressando então que o conceito de região e, por extensão, os processos de regionalização que o acompanham, epistemologicamente falando, são moldados dentro de um amplo continuum, desde a visão mais racionalista que percebe a região como mero constructo do nosso intelecto, instrumento que permite entender a dinâmica das partes do espaço geográfico, até abordagens mais realistas, em torno de fenômenos ocorridos provenientes das relações ali vivenciadas.